
Rosemary Lima segura com orgulho as medalhas conquistadas pela filha, a judoca Ketleyn Quadros. (Foto: Instagram)
Em Ceilândia Sul, uma família mostrou que é possível transformar sonhos em realidade e alcançar feitos históricos para o Brasil através da luta. Rosemary Lima, atualmente com 59 anos, nasceu no hospital do Gama, filha de pais vindos de outras regiões do país, e cresceu na Vila IAPI, uma área ocupada por milhares de trabalhadores do Distrito Federal. Com o tempo, mudou-se para Ceilândia, onde, aos 20 anos, teve sua filha mais velha, Ketleyn Quadros.
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Rosemary, que trabalhava como cabeleireira, criava sua filha enérgica com o trabalho no salão. Para canalizar a energia da menina, aos sete anos, a inscreveu em esportes e, após enfrentar a fila do SESI, a colocou na natação. Contudo, mesmo chegando quase uma hora antes, Ketleyn sempre chegava em cima da hora, o que chamou a atenção da mãe. O motivo? O judô.
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“Eu via todos de kimono, isso me chamava a atenção e comecei a chegar em cima da hora das aulas de natação, porque me perdia assistindo as aulas de judô”, comentou Ketleyn.
Assim, Rosemary conversou com a filha, que passou a praticar ambos os esportes. Mas, ao entrar no tatame, Ketleyn não queria mais sair. Sendo a única menina na aula de judô, a mãe temia que ela se machucasse, mas para Ketleyn foi amor à primeira vista. A brincadeira se tornou séria e, mesmo jovem, ela já sabia o que queria ser.
“Na escola, pediram uma redação sobre o que queríamos ser quando crescêssemos. Ela disse à professora que queria ser uma atleta importante para o Brasil. Quando a professora perguntou o que ela fazia, eu respondi: judô”, relatou Rosemary.
A trajetória de Ketleyn no esporte cresceu, e ela começou a competir. Contudo, a estrutura em Brasília era limitada e as despesas, como kimonos e viagens, aumentaram, tornando-se pesadas para sua mãe. Aos 17 anos, a judoca se mudou para Belo Horizonte para treinar no Minas Tênis Clube. Mesmo com o coração apertado, Rosemary sabia que sua filha precisava seguir seu sonho.
“Assim que terminei o ensino médio, já acompanhava as Olimpíadas. Lembro de ver Leandrinho (Guilheiro) e Flávio Canto ganhando medalhas em Atenas (2004). Fiz um cálculo e pensei: daqui a quatro anos, terei 20 e poderei ganhar uma medalha como Leandrinho, que conquistou com 21”, contou Ketleyn.
E assim foi. Após se mudar para Minas Gerais, ela treinou, competiu e se classificou para as Olimpíadas de 2008, em Pequim, onde teria a chance de conquistar a medalha que tanto sonhava.
No Distrito Federal, Rosemary vibrou com a conquista da filha e pensou em ir à China para acompanhá-la. Contudo, sem recursos financeiros e afastada do trabalho devido ao nascimento de sua caçula, viu seu objetivo se distanciar.
“Eu disse: não tenho condições de ir, não tenho dinheiro. Quase nem visitava Ketleyn em Minas, ia de vez em quando com uma amiga que me dava carona. Ficávamos quase cinco meses sem nos ver”, relatou Rosa.
Mas o final não foi triste. Ao compartilhar a situação com a madrinha de Ketleyn, elas iniciaram uma vaquinha entre amigos e a viagem começou a se tornar realidade. Rosemary e Ketleyn contam o que aconteceu depois e se a viagem à China se concretizou.
Para Ketleyn, sempre que sua mãe a assistia competir, o nervosismo aumentava. No entanto, após conquistar o bronze, que a marcou como a primeira atleta do Brasil a ganhar uma medalha olímpica em esportes individuais, Rosa se tornou seu amuleto. E não era apenas a presença dela, mas também a roupa da sorte que a acompanhava nas conquistas.
“Eu gosto muito de verde, e antes de encontrá-la, antes das viagens, estava numa feirinha em Belo Horizonte e encontrei um vestido verde, bem bonito. Falei: mãe, já comprei a roupa para quando você for me assistir. Mesmo sem saber como ela faria isso, eu a incentivei. E virou a roupa da sorte, mas a sorte mesmo era ela”, explicou Ketleyn.
Além da roupa, Rosa também demonstrava apoio de outra forma. Desde 2008, inspirada por uma ideia da madrinha de Ketleyn, ela estendeu uma faixa na porta de sua casa, contando a todos que sua filha estava nas Olimpíadas. Com frases de apoio, torcida organizada e camisetas, ela torcia.
Além dos jogos de 2008, Ketleyn participou de outras duas edições: em Tóquio, em 2021, sem apoio presencial devido à pandemia, e em Paris, em 2024, quando quase pensou em se aposentar após perder sua avó, mãe de Rosemary.
“Eu estava desanimada, rezando, e disse: se for, foi, estou grata. Mas ao ver minha mãe rezando em Aparecida, percebi que não era por mim. Era por ela”, contou Ketleyn.
Então, aos 36 anos, considerada acima da idade por muitos, Ketleyn se classificou para as Olimpíadas de Paris e conquistou mais uma medalha de bronze, desta vez por equipes mista, novamente com sua mãe presente.
De uma menina agitada a uma medalhista olímpica, Ketleyn se tornou referência em sua cidade. Rosemary comentou que, além da felicidade dos vizinhos, sua filha serviu como inspiração para muitos jovens.
“Os vizinhos ficaram muito felizes e orgulhosos, porque muitos jovens se perdem, mas ela superou tudo isso”, contou a cabeleireira.
Para Ketleyn, as mulheres guerreiras que a cercavam ensinaram a lutar. Mais velha, ela olhou para trás e reconheceu a realidade que viveu, mas, segundo ela, superaram as probabilidades.
“Eu as chamo de mulheres guerreiras porque venceram as estatísticas. Desde cedo fazíamos isso. Nunca soube o oposto de lutar pelo que acredita”, disse a atleta.
Para Rosemary Lima, ser mãe é participar, cuidar e confiar, estando presente nos bons e maus momentos. E ela fez isso com Ketleyn, mesmo do outro lado do mundo.
“Ser mãe da Ketleyn é emocionante, porque ela me faz passar por muitas emoções, desde pequena. Cresci junto com ela”, declarou.
Para Ketleyn Quadros, ser filha de Rosemary é expansão, é ser parte dela, da luta ao sorriso, é colocar excelência em tudo. É um privilégio.
“Eu não poderia ter uma mãe melhor. Se houvesse outra vida, escolheria ela infinitas vezes”.
Neste domingo (10/5), celebra-se o Dia das Mães, e a judoca não deixou de mandar uma mensagem especial.


