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Moradores do Edifício JK relatam mudanças após saída de síndica de 42 anos

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Edifício JK, em Belo Horizonte, palco de 42 anos de gestão polêmica (Foto: Instagram)

Belo Horizonte – O Conjunto Juscelino Kubitschek, onde está localizado o maior edifício da capital mineira, está em destaque com o lançamento do podcast “A Síndica”, que narra a trajetória de Maria das Graças, síndica do condomínio por 42 anos. Este foi um período marcado por acusações e disputas. No entanto, segundo os moradores, as coisas estão mudando, e tanto eles quanto os funcionários se sentem "mais leves e felizes".

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O podcast, produzido pelo jornalista Chico Felitti, revela como Maria das Graças manteve-se no comando do Edifício JK por quatro décadas, cercada por funcionários-espiões e decisões polêmicas — incluindo a exigência de mais de 60 interpelações à única mulher que tentou concorrer ao cargo e a imposição de um depósito de R$ 4 milhões para candidatos a síndico.

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Essa figura imponente, que criou regras polêmicas como proibir cachorros de pisarem no chão do JK e exigir pagamento do condomínio em dinheiro vivo, não está mais no poder. Os moradores afirmam que o ambiente no condomínio se transformou.

Para aqueles que ouviram apenas o primeiro episódio do podcast, o destino dela ainda é um mistério. No entanto, para os residentes de Belo Horizonte, o desfecho é claro: Maria Lima das Graças faleceu aos 78 anos, em 13 de março deste ano, no hospital.

Apesar de a causa da morte nunca ter sido oficialmente divulgada pela família, documentos judiciais de um processo em que Maria das Graças estava envolvida indicavam um quadro de transtorno neurocognitivo grave, possivelmente Alzheimer. O enterro ocorreu de forma discreta, sem velório, no Bosque da Esperança, no bairro Jaqueline, na região Norte da capital.

Agora, a reportagem do Metrópoles entrevistou moradores para entender as mudanças no condomínio, quem está no comando e como eles percebem a repercussão do novo podcast.

DINASTIA?
Quando Maria das Graças se afastou do cargo pela primeira vez, em agosto, devido a problemas de saúde, Caio Rômulo Delgado de Lima, irmão da síndica, assumiu a posição. No entanto, ele logo renunciou após críticas dos moradores, que diziam que ele raramente aparecia no prédio. Caio alegou falta de tempo, desconhecimento da rotina administrativa e dedicação à recuperação da irmã.

Durante a ausência de Maria das Graças, a gestão do prédio ficou sob responsabilidade de Manoel Gonçalves de Freitas Neto, gerente do condomínio há 20 anos. Em setembro, sem previsão de retorno da síndica, uma assembleia extraordinária foi realizada para oficializar a nova liderança.

A chapa associada ao braço direito de Maria das Graças, incluindo Manoel, venceu a eleição com uma pasta de procurações que, segundo moradores, não foi verificada. “Eles não deixaram ninguém ver. Então ficou todo mundo com muito pé atrás”, relembrou o morador Otávio de Menezes, de 40 anos.

Para muitos moradores, esse tipo de prática contribuiu para a manutenção da antiga gestão.

Hoje, houve uma leve reformulação: o condomínio é administrado por Manoel, como síndico, ao lado de Flávia Lima, filha da ex-síndica, que ocupa o cargo de subsíndica. Já Caio retornou à gestão do prédio como gerente-geral.

DESCONFIANÇA
A quase dois meses da morte, moradores afirmam que o clima no condomínio melhorou. Apesar da resistência inicial — já que Manoel era o braço-direito da ex-síndica —, há relatos de que mudanças começaram a ser percebidas nos últimos meses.

“O principal problema eram os elevadores. Especialmente no bloco B, acontecia de não ter nenhum funcionando. Assim que ele entrou, já reformou o elevador de serviço do bloco A… Agora também estão reformando no bloco B”, contou Otávio.

O morador também afirmou que áreas antes restritas voltaram a ser utilizadas. “A quadra era proibida de usar. O parquinho das crianças também estava interditado. Eles cuidaram da iluminação e agora as pessoas realmente usam os espaços. É comum ver moradores andando na esplanada, crianças brincando, gente convivendo”, disse.

Segundo Julieta Sueldo, de 54 — moradora que foi alvo de mais de 60 interpelações ao tentar concorrer contra Maria das Graças —, práticas consideradas absurdas deixaram de acontecer. “É o mínimo. A gente paga um condomínio altíssimo aqui”, afirmou. Julieta também destacou que cachorros agora podem circular normalmente na coleira e que os porteiros passaram a ser mais receptivos e prestativos.

Otávio destacou mudança no comportamento dos funcionários. “Os funcionários estão mais leves, mais felizes. Eu já tinha ouvido relatos da antiga síndica maltratando funcionários, inclusive pessoas que eram muito queridas no prédio. O ambiente antes dela sair era muito ruim, especialmente para os trabalhadores”, concluiu.

‘O MEDO PASSOU’
Leidi Salvina, de 40, designer gráfica e profissional de marketing, que hoje trabalha na administração, confirma: “O medo passou. Da portaria ao administrativo, tudo agora é acessível e desburocrático”, afirmou ela, que administra a página do Instagram do condomínio.

Ela, que mora no local desde a pandemia, em 2021, contou ainda que a morte não gerou grande comoção entre os moradores. “Eu recebi a notícia enquanto estava na feirinha solidária que acontece no JK. Algumas pessoas ficaram tristes, mas a grande maioria que estava lá, não…”, disse.

A REPERCUSSÃO
Não se fala em outra coisa pelos corredores do edifício além do podcast. Julieta foi uma das entrevistadas que ajudaram a contar essa história e disse que, no início, ficou com medo da repercussão, mas terminou satisfeita com o resultado.

“Fiquei com bastante medo, mas achei que foi tudo tratado com muito cuidado e respeito. Muitas coisas que eles mostraram são fatos, não são opiniões”, disse.

Para Julieta, o caso também expõe um problema maior envolvendo a legislação condominial no Brasil. “Tem muita irregularidade absurda acontecendo em condomínios porque a ata de assembleia acaba sendo soberana. Mesmo quando existem coisas graves, isso continua acontecendo. É muito sério uma pessoa ficar mais de 40 anos no poder dentro de um condomínio”, afirmou.

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