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Golpistas criam mulheres com deficiência usando IA para vender conteúdos falsos

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Perfis falsos de mulheres com deficiência gerados por IA atraem seguidores e aplicam golpes (Foto: Instagram)

Perfis gerados com inteligência artificial simulam mulheres com deficiência para aplicar golpes e comercializar conteúdos adultos. Frases como "Será que eu nunca vou me casar só porque eu sou PcD?" aparecem em vídeos de um padrão específico. Neles, jovens aparecem chorando ou relatando solidão, enquanto um esquema lucrativo está por trás.

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As personagens variam entre mulheres amputadas, cadeirantes, com vitiligo ou nanismo. Em alguns casos, perfis simulam até gêmeas siamesas com aparência realista. Tudo é criado digitalmente para atrair atenção e engajamento.

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Nos comentários, homens alternam entre elogios e investidas sexuais. “Boa tarde, meu amor. Você acabou de encontrar um homem que vai te amar”, escreveu um usuário. “Oi, loira gostosa”, comentou outro. “Você é linda, ganhou mais um seguidor”, disse um terceiro.

De forma discreta, esses perfis divulgam links para supostos grupos pagos com conteúdo adulto. Em alguns casos, o material até existe. Em outros, trata-se apenas de fraude.

Um usuário anônimo relatou ter sido enganado após pagar por acesso ao conteúdo de uma criadora chamada Luiza. “Essa mina do insta compartilha link de bot de Telegram. Após o pix, o bot manda um link falso expirado de grupo. Cuidado, não é verdadeiro, infelizmente eu cai, mas espero ajudar alguém”, escreveu.

O Brasil tem 8,3 milhões de mulheres com deficiência, segundo o IBGE. Amparadas pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, elas têm direito à autonomia sobre o corpo e a reprodução. Ainda assim, na prática, esse direito esbarra em mecanismos que, impulsionados pela tecnologia, transformam seus corpos em mercadoria no ambiente digital.

O fetiche por pessoas com deficiência é conhecido como devotismo. Especialistas ouvidas pelo Metrópoles reconhecem a prática, mas alertam para a objetificação em conteúdos gerados por IA.

A psicóloga e sexóloga Priscilla Souza, que é uma mulher com deficiência, afirma que esse material distorce a realidade e cria visões equivocadas sobre sexualidade. “O jovem ou mesmo adulto, ele vai criar uma imagem do bizarro, do fetiche”, afirma. “Quando você joga isso num grupo excluído e marginalizado, isso faz muito mal para aquele grupo, porque a gente luta o tempo todo para ser enquadrado no mundo dos seres humanos normais, porque nós somos normais.”

Rosana Lago, presidente da Frente Nacional das Mulheres com Deficiência, pontua que simular corpos e experiências de PcDs “fere a dignidade” e pode afetar a autoestima de mulheres reais, além de distorcer a forma como a sociedade enxerga essa população. “A imagem dessa mulher com deficiência está sendo criada como algo fetichizado, exótico ou digno de pena”, reflete. “Quando a deficiência é o único elemento de interesse e reduz a essa mulher um objeto, isso é um problema.”

Antes da IA, o devotismo já aparecia em revistas e filmes adultos. Com a tecnologia, o controle das próprias mulheres sobre a representação de seus corpos se tornou ainda mais limitado. Lago ressalta a diferença entre autonomia e exploração. “Então, uma mulher com deficiência pode sim produzir um vídeo, mostrar seu corpo, expressar sua sensualidade. Isso é parte da sua autonomia e precisa ser respeitado com muito cuidado”, declara. “O que não dá pra gente aceitar é quando não há pessoas reais envolvidas nesses conteúdos.”

Souza trata o tema com cautela. Segundo ela, vídeos explícitos com pessoas com deficiência podem reforçar estigmas e posições de submissão. Por outro lado, conteúdos que exponham barreiras na vida sexual podem gerar avanços. “Tudo isso tem que ser construído com muito cuidado, sem marginalizar”, afirma.

Criar perfis com inteligência artificial não é crime por si só. A ilegalidade surge quando há intenção de enganar, explorar ou obter vantagem indevida. A advogada Mariana Piovezani Moreti, especialista em propriedade intelectual, explica os limites legais: “Não é a existência do perfil de IA que caracteriza a fraude, mas o uso de elementos enganosos, a promessa não cumprida e a intenção de obter vantagem indevida.”

Quando não há transparência sobre o uso de IA, o perfil pode ser enquadrado como publicidade enganosa. Em casos mais graves, com pagamento por conteúdos inexistentes, a prática pode configurar estelionato. A advogada afirma que usar a deficiência como apelo agrava o caso, caracterizando “persuasão abusiva”. Muitas publicações associam a solteirice das falsas influenciadoras à deficiência, algo reforçado por comentários de homens que tentam “consolar” as supostas jovens.

A identificação dos responsáveis é difícil. Os perfis têm pouca informação e costumam ser derrubados rapidamente pelas plataformas, mas reaparecem com outros nomes e formatos semelhantes. Para vítimas, a orientação é buscar estorno junto ao banco, registrar reclamação no Procon e guardar provas, como conversas e comprovantes de pagamento. Para identificar o autor da fraude, é necessário um processo judicial, no qual um juiz pode determinar que plataformas ou instituições financeiras forneçam dados cadastrais do perfil.

Moreti também alerta para sinais de conteúdo artificial: “Imagens podem parecer realistas à primeira vista, mas apresentam detalhes artificiais quando observadas com atenção: mãos com formatos estranhos, assimetrias sutis, fundo borrado de forma irregular ou repetição de padrões.”

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