
Logotipo do Festival de Cannes em projeção roxa durante anúncio da seleção oficial (Foto: Instagram)
O Festival de Cannes divulgou nesta quinta-feira (9/4) a lista de filmes que participarão da 79ª edição, reacendendo o debate sobre representatividade na vitrine mais prestigiada do cinema global. Após anos de abertura ao cinema latino-americano, a seleção de 2026 apresenta um perfil mais conservador — a região está ausente da disputa pela Palma de Ouro.
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Para a crítica de cinema Flávia Guerra, o cenário não é surpreendente: o que era incomum era a forte presença latino-americana nos últimos anos.
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“Infelizmente, a exceção é quando temos filmes latino-americanos em competição. Nos últimos 10 anos, os quatro filmes latino-americanos que competiram pela Palma de Ouro foram brasileiros: Aquarius, Bacurau, O Agente Secreto, todos de Kleber Mendonça Filho, e Motel Destino, de Karim Aïnouz”, destacou.
Para Flávia, a ausência de produções latinas é ainda mais evidente quando comparada à forte presença francesa na seleção. A França ocupa cerca de oito vagas na competição principal, enquanto regiões como América Latina e África ficaram de fora. “É uma falta de aposta, falta de coragem de investir no novo”, afirmou.
O contraste é ainda mais marcante considerando o destaque recente de produções latino-americanas no festival. Em 2025, filmes da região ganharam visibilidade. O brasileiro O Agente Secreto, com Wagner Moura, conquistou dois prêmios principais, gerando expectativa de continuidade desse movimento.
Fora da competição principal, o cinema latino continua presente em mostras paralelas. A mostra Um Certo Olhar, conhecida por acolher produções mais ousadas, inclui títulos da América Latina, como um filme chileno e outro costa-riquenho, ambos dirigidos por mulheres.
“Às vezes [a mostra Um Certo Olhar] traz filmes mais interessantes e ousados do que a competição oficial, porque há mais liberdade para ousar”, completou.
O filme Elefantes na Névoa, selecionado para a mostra, é uma coprodução internacional entre Nepal, Alemanha, Brasil, França e Noruega.
Essa tendência, segundo a especialista, se deve à tradição do festival em priorizar cineastas já consagrados, limitando a entrada de novas vozes.
Diretores considerados “queridos” de Cannes continuam presentes, reforçando uma curadoria mais segura. Exemplos incluem Ryusuke Hamaguchi, Pedro Almodóvar, Paweł Pawlikowski, Andrey Zvyagintsev e Ira Sachs.
Outro destaque da seleção é a ausência de produções de Hollywood — tanto na competição principal quanto nas sessões de maior visibilidade.
Para Flávia, faltam filmes que combinem assinatura autoral e escala de estúdio, algo que Cannes valoriza. “Os grandes estúdios não estão fazendo nem ultra blockbusters nem filmes autorais”, afirmou.
Mesmo com nomes de peso na programação, eles ficam fora da disputa principal. É o caso de Ron Howard e Steven Soderbergh, que lançam documentários sobre John Lennon e Richard Avedon, respectivamente.
“Para competir pela Palma, um documentário precisa ser muito diferenciado. Não é o caso desses dois”, analisou.
A ausência de “mega pré-estreias”, que costumam levar grandes produções comerciais ao festival, também foi sentida. Flávia sugere que Duna: Parte 3 seria um candidato natural para esse tipo de exibição, mas o estúdio pode ter optado por outro caminho.
As regras do mercado francês, especialmente a janela de exibição que obriga filmes a permanecerem nos cinemas antes de irem para o streaming, também impactam. A Netflix, que tem presença nas premiações recentes, raramente segue essa prática, limitando sua participação em festivais.
Apesar do anúncio, a seleção ainda não está completamente fechada. É comum que o festival adicione novos títulos nas semanas que antecedem o evento, seja por ajustes de programação ou finalização de algumas obras.


