
Zema desafia STF como ‘inconfidente’ moderno? (Foto: Instagram)
O ódio ao STF que permeia parte do colunismo é tão intenso que nos faz questionar sua espontaneidade. Poderia parecer algo fabricado, se não fosse pela tradição do reacionarismo, que rivaliza com a da conspiração.
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Eu não costumo debater opiniões alheias, pois não as leio. As colunas que me chamam a atenção são aquelas que trazem informações diretas. Ignoro os "offs" e as conversas com "interlocutores". Quem tem algo a dizer, assina. Caso contrário, está apenas plantando interesses. Por que eu deveria ser consumidor desse tipo de conteúdo? Vamos em frente.
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Foi assim que aconteceu. "Você leu o que o [Elio] Gaspari escreveu?", perguntou um amigo, enviando-me o trecho: "O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, reconciliou-se com a Inconfidência Mineira. Criticando os 'intocáveis' do STF, aproveitou o aniversário da execução de Tiradentes e declarou: 'Brasília explora o Brasil como os portugueses fizeram. (…) A luta dos inconfidentes não acabou'. Em 2023, Zema tinha uma visão diferente sobre a Conjuração: 'Temendo as consequências do golpe à Coroa portuguesa, os inconfidentes não confessaram seus crimes. Apenas Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o fez, recebendo a pena mais dura em 21 de abril de 1792'. Tudo errado. Os inconfidentes confessaram seus planos, começando pelo advogado Cláudio Manuel da Costa. As confissões e denúncias são mais de uma dezena. Zema estava do lado da Coroa portuguesa. Felizmente, mudou de lado."
OS FATOS
Vamos aos fatos. Cláudio Manuel da Costa, advogado e poeta, foi preso em 25 de maio de 1789, interrogado em 2 de julho e encontrado morto em sua cela em 4 de julho, supostamente enforcado. Há especulações de que ele tenha delatado seus companheiros conspiradores. Mas meu interesse agora é outro.
Gaspari sugere que Zema, desta vez, está do lado certo da Conjuração, diferente do que ele indicou em 2023. Será? Nessa metáfora, o STF seria a Coroa portuguesa, e o ex-governador de Minas teria finalmente se aliado a uma forma de "progressismo"?
O melhor livro sobre a Inconfidência ainda é "A Devassa da Devassa" de Kenneth Maxwell, publicado no Brasil em 1977 pela editora Paz e Terra. Ele libertou o tema das amarras escolares do suposto idílio entre o patriotismo nativista e as ideias do bem, do belo e do justo. A Conjuração Mineira era um movimento de proprietários ricos, quase todos senhores de escravos, sem participação popular. A proximidade intelectual de alguns de seus líderes, como Cláudio Manuel da Costa, com o Iluminismo não os tornava exatamente revolucionários.
Rumores indicam que o "enforcamento" foi uma armação do Visconde de Barbacena, governador de Minas e homem da Coroa, mas possivelmente envolvido com os conspiradores. Como o preso estava disposto a "contar tudo", o desfecho foi trágico.
ZEMA LIBERTADOR?
Refaço a pergunta: ao atacar o STF, Zema estaria agora do lado certo por quê? O tribunal que garantiu a democracia sobre o golpe e prendeu criminosos deveria ser visto como uma força que aprisiona a nação, tornando Zema um libertador?
O político que vê os Estados do Nordeste como uma força de atraso merece essa deferência? Esse gestor "revolucionário" pegou um Estado com uma dívida de R$ 104 bilhões e a elevou para R$ 182 bilhões em sete anos. E a situação só não piorou por causa das intervenções do STF, que garantiu a suspensão do pagamento. Esse é o homem?
Estamos diante de uma forma peculiar de "iluminismo" contra os colonizadores do STF, prometendo, se eleito, suspender o Bolsa Família para homens, alegando que eles se aproveitam do benefício para não trabalhar, gerando escassez de mão de obra. Até os colonizadores de antigamente veriam isso como o cúmulo do reacionarismo.
A que lado certo da Inconfidência, no presente, Zema teria se juntado? Certamente não aos intelectuais como Cláudio Manuel da Costa, um bom sonetista. Ele e Tomás Antônio Gonzaga, de origem portuguesa, formam o par de poetas que expressaram a poesia árcade no Brasil.
Ou alguém imagina Zema, que desconhece Adélia Prado, recitando:
Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!
Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra meu coração guerra tão rara
Que não me foi bastante a fortaleza.
Por mais que eu mesmo conhecesse o dano
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano;
Vós que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei: que Amor tirano
Onde há mais resistência mais se apura.
Ele falharia na interpretação do texto.
ENCERRO
Quando se diz que, ao desafiar o STF, Zema finalmente escolhe o lado certo da Inconfidência, não há outra interpretação: o tribunal seria a força reacionária a ser vencida, e o pré-candidato do Novo seria um agente do progresso.
Isso reflete a história recente do Brasil? A resposta é "não". A menos que alguém se alinhe com o reacionarismo contra o pacto civilizatório. Isso é mandar os fatos para a forca.
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